quarta-feira, 16 de abril de 2008

"Quanto a mim o amor passou, só lhe peço que não faça como gente vulgar, que nem me volte a cara quando passe por si, nem tenha de mim uma recordação em que entre o rancor, fiquemos um perante um outro como dois conhecidos durante a infância, que se amaram um pouco quando meninos embora na vida adulta sigam outras afeições, e conservam, nos caminhos da alma, a memória de um amor antigo e inútil."

Fernando Pessoa, dito magistralmente por Maria Bethânia

sábado, 5 de abril de 2008

Tenho saudades de me apaixonar,
de sentir o coração bater mais depressa
e o sorriso aparecer a iluminar um momento.

Tenho saudades de fixar um olhar bonito,
de tocar uma mão macia e de abraçar,
até sermos um só.

Tenho saudades de caminhar para ti,
de ouvir um beijo,
de estar e permanecer, assim.

Tenho saudades de chorar por um amor ausente,
de me sentir feliz com a chegada
e de sonhar.

Tenho saudades de ter a certeza, de duvidar e de me deixar ir.

Tenho saudades de ter saudades.
Entre o vermelho e o preto
Existe uma possibilidade,
Existe uma vontade grande,
Existe um desejo enorme de ser tua!
Entre o vermelho e o preto
Existe a minha nudez que te reclama,
Existe a chama reaceza,
Existe uma certeza à nossa espera.

E entre o vermelho e o preto
Existo eu.
E entre o vermelho e o preto
Existes tu.

E no culminar do pôr-do-sol,
No começar da lua toda,
Na sombra de todo o céu,
Talvez, um dia,
Entre o vermelho e o preto
Existiremos Nós!

Eu, inspirada e apaixonada, 1988

terça-feira, 4 de março de 2008

Aquilo que eu sinto e nunca consegui escrever!

« A falta de lei da vida

De tudo o que me faz pensar, há uma coisa que me atropela a cabeça.
A idade.
Não a minha, a deles.
Há qualquer coisa que rasga.
Choram-me as estatísticas que eu estarei cá quando os meus pais não estiverem.
Muito nublado, bem sei. Mas real.
Posso tê-los agora, e abraçá-los com a carne que me deram, mas...e depois?
Vejo-lhes os anos na pele e a pele dá-me saudades.
Saudades do que não vou ter.
É a lei da vida, e todas as frases feitas que pregarem nas paredes.
Mas a saúde teima em ir à sua vida cedo demais.
Não a deles, a das estatísticas.
Hoje tenho-os ali.
Visto daqui, dos meus olhos, não envelheceram.
Foram emprestando um ou outro ano aos ossos.
Quero o meu pai a ficar envergonhado quando diz "gosto muito de ti filho" e a minha mãe com gotas de amor a marcar passo nos olhos quando diz "gosto muito de ti filho, nunca te esqueças disso"
Nunca te esqueças disso.
E depois, o que fica?
As memórias não são de carne, são de lágrimas.
E essas custam mais a abraçar.
Há qualquer coisa que rasga, eu bem disse.
Sei que estão na casa dos sessentas.
Mais precisão do que essa acelera-me o sangue.
"São novos".
E porque é que não ficam sempre assim?
Atrasem o relógio quarenta anos, vá lá.
Só desta vez, ninguém vai dizer nada à terra.
Apetece deixar cair uma pedra na roda dentada e parar tudo.
A assobiar, para não ter de prestar contas.
A palavra filho é patente deles.
Quando a dizem há uma manta que protege o coração até cima.
Depois da estatística fica só o coração e a manta enrolada aos pés.
Podemos sempre puxá-la, mas nunca mais vai tapar tudo.
E não, nunca me esqueço disso. »


posted by Bruno Nogueira,
in: corpodormente.blogspot.com
Obrigada, Bruno, por teres escrito aquilo que eu sinto e nunca consegui dizer!

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

A Invisibilidade de Deus

dizem que em sua boca se realiza a flor

outros afirmam:

a sua invisibilidade é aparente

mas nunca toquei deus nesta escama de peixe

onde podemos compreender todos os oceanos

nunca tive a visão de sua bondosa mão



o certo

é que por vezes morremos magros até ao osso

sem amparo e sem deus

apenas um rosto muito belo surge etéreo

na vasta insónia que nos isolou do mundo

e sorri

dizendo que nos amou algumas vezes

mas não é o rosto de deus

nem o teu nem aquele outro

que durante anos permaneceu ausente

e o tempo revelou não ser o meu


Al-Berto
O Medo

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Triste...

Triste, triste, triste.
Tristeza intima, profunda, correndo nas veias.
Tristeza de cais, de despedida, de solidão.
Tristeza por deixar o meu "Paris, Texas", que vai voltar para a fotografia.

Aqui chorei, aqui sorri, aqui me fiz melhor, aqui amadureci, aqui fui feliz.

Triste, triste,triste!

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Procura-se um amigo

Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto, dos ventos e das canções da brisa. Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor. Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja todo impuro, mas não deve ser vulgar. Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa. Tem que ter ressonâncias humanas, seu principal objectivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários. Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer.

Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo. Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade. Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.

Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo. Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas. Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.

Vinicius de Morais